segunda-feira, 29 de outubro de 2007

QUÍMICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM RESERVA EXTRATIVISTA: UMA EXPERIÊNCIA NO AMAZONAS

Por: Nelson Lacerda.em 29/10/2007.

Com o despertar para a valorização da biodiversidade amazônica e a importância da agregação de valor à matéria-prima da região, a Química, especialmente a Orgânica, tem papel extremamente fundamental e estratégico nesse contexto. O desenvolvimento de novos produtos ou a inserção de insumos naturais em outros, passa necessariamente por processos e transformações químicas. A racionalidade do uso de matérias-primas da floresta com a aplicação de tecnologias alternativas, associadas ao conhecimento de populações tradicionais da Amazônia em espaços organizados como as Reservas Extrativistas-RESEX, pode ser um modelo de desenvolvimento com um melhor retorno e alcance social as populações indígenas e ribeirinhas, com reflexos positivos nas áreas econômica e ambiental. E principalmente a Química Orgânica, tem seu aspecto fundamental nesse processo de sustentabilidade. Por exemplo, como agregar valor a um óleo vegetal ou essência, fabricando um sabonete ou perfume? Ou ainda desenvolver um remédio à base de princípios ativos de plantas nativas? Como fazer a extração de pigmentos alimentícios e manipular a inserção e ou substituição de um novo insumo natural a uma formulação já existente, sem se ter conhecimentos fitoquímicos ou os processos físico-químicos de transformação? Quando existe vontade política de administração pública comprometida com a comunidade, que se junta a instituições de ensino e pesquisa e ao conhecimento tradicional local, surgem alternativas de desenvolvimento e aplicação concreta de meios produtivos. Existem alguns exemplos dessa nova mentalidade no interior do Estado do Amazonas, e pode-se citar a experiência do município da cidade de Carauari-AM no médio Juruá onde se localiza a primeira Reserva Extrativista-RESEX do Estado. No ano de 1999, atividades experimentais estimuladas pelo neo-extrativismo, iniciaram e confirmaram através de um projeto de pesquisa executado pela Universidade Federal do Amazonas, a possibilidade de se agregar valor na matéria-prima fechando o ciclo produtivo no local, desenvolvendo sabonete, sabão e vela de óleo de andiroba (carapa guianensis), isto em uma comunidade extrativista isolada denominada por Roque. Esse mesmo projeto implantou um processo de coleta, tratamento e uma usina de extração de óleo de andiroba, com o objetivo principal de gerar energia elétrica para a comunidade com a queima de óleo de andiroba. Até o ano de 2001 na comunidade extrativista do Roque, universitários e alguns outros profissionais, entre esses, um Químico recém-formado pela UFAM, integrante da equipe do projeto, realizou atividades na área de educação e experimentos químicos para agregação de valor ao óleo de andiroba. Utilizando-se do processo educacional planejado para o local como meio de desenvolvimento, estudantes do ensino fundamental da comunidade utilizando-se de processos físico-químicos fabricavam sabão, sabonete e vela inseticida, todos a partir do óleo de andiroba, que é uma matéria-prima abundante na região. Por um certo período várias amostras dos produtos comprovaram a possibilidade de um desenvolvimento sustentável de comunidades extrativistas isoladas com a aplicação fundamental da Educação e a Química na floresta. Com o auxílio desses conhecimentos, o homem amazônico pode deixar de ser um simples coletor extrativista e passar a ser um produtor em potencial dentro de um mercado natural crescente. Os conhecimentos indígenas, entre os outros de populações tradicionais, aliados a Química podem valorizar a biodiversidade local com um retorno sócio-econômico-ambiental muito mais amplo, principalmente em espaços organizados como as Reservas Extrativistas-RESEX. Novos produtos podem surgir, outros podem ser melhorados, assim como as qualidades de insumos naturais que são oferecidos para os diversos segmentos industriais, podem ser de melhor qualidade e mais competitivos. Um novo conceito de desenvolvimento transcende o nível econômico. Dentro dessa lógica, a aplicabilidade da Química é possível, e talvez seja o catalizador da sustentabilidade ambiental baseada na agregação de renda à biodiversidade amazônica como forma de melhorar a qualidade de vida do sofrido homem amazônico. Parece que estão esquecendo ou existe pouca informação de que os processos básicos para que ocorra desenvolvimento com agregação de valor a inúmeras matérias-primas da Amazônia, são processos físico-químicos. Cabe fazer um alerta, o Amazonas necessita urgentemente de investimentos na área de Química para que se efetive o desenvolvimento sustentável em alguns setores, assim como os Químicos precisam com brevidade ter um maior compromisso social com o homem amazônico, sob pena de se deixar uma lacuna para pessoas descompromissadas com essa região e com o País. Nelson José Batista Lacerda* * O autor é Químico formado pela UFAM (CRQ 14ª AM/RR N° 14100418) e morou por mais de 20 meses na RESEX do médio Juruá, município de Carauari-AM, como bolsista DTI-CNP, experimentando a praticabilidade da Educação e Química na floresta como membro da equipe de execução de um projeto da UFAM-FT e CNPq. Coordenado pelo Prof. Dr. José de Castro. Mora atualmente na cidade Carauari-Am e é Secretário Municipal de Meio Ambiente. E-mail: lacerdabenzenomm@yahoo.com.br. Fone/Fax: (97) 491-1844.

Um comentário:

Anônimo disse...

Caro Hilário.

Parabéns pelo seu Blog. Nossa cidade precisa de espaços que falem de coisas sérias, importantes e culturais, seu Blog é assim. Agradeço também sua gentiliza em publicar o artigo que escrevi sobre minha experiência profissional em Carauari. Obrigado. valeu.

Sucesso.

nelson lacerda