sábado, 13 de outubro de 2007

Tropa de Elite ou A Escolha Moral

Gabriel Viviani
Publicado no Recanto das Letras em 13/10/2007
Código do texto: T692660

Os petralhas andam choramingando nos últimos dias. Choram no blog petista, esbravejando contra Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho. Choram por conta das denúncias de Ali Kamel a respeito do uso da máquina de doutrinação marxista no ensino público brasileiro. Esperneiam diante do Che revelado pela Veja, e queimam a revista em via pública como meninos mimados e birrentos. E agora deram para lamuriar-se contra o filme Tropa de Elite, acusando de fascista e direitista tanto a obra quanto seu diretor. Ora, direitista não sei se José Padilha é, mas fascista tenho certeza de que não. Obviamente querer vincular os dois termos como coisas símiles é mais uma das estratégias safadas do movimento revolucionário. Afinal, ser direitista não significa ser fascista, embora ser esquerdista signifique quase sempre ter um orgasmo diante de figuras sanguinárias como Lênin, Mao, Fidel e o próprio “porco fedorento”.

Penso aqui numa das cenas do filme, e consigo até mesmo ver os chiliques de indignação sofridos por todos os “luminares do humanismo”. O personagem denominado Capitão Nascimento fala a respeito de Baiano, um dos traficantes: “O cara deve ter tido uma infância fodida. Eu não vou aliviar por causa disso...”. Há mais de trinta anos convivemos, em nosso país, com a cultura do bandido como uma vítima da sociedade capitalista, um pobre indivíduo que, não tendo recebido outras oportunidades, enveredou forçosamente pelo caminho da criminalidade, menos por uma vontade própria, e mais por conta das circunstâncias. A glamurização da bandidagem tornou-se logo um dos temas prediletos de artistas e intelectuais de esquerda, que cultuaram as imagens do trombadinha e do malandro na literatura e na música, caracterizando-os sempre como verdadeiros Robin Hoods tupiniquins. Popularizou-se nessa época a frase: o bandido só puxa o gatilho, quem mata é a sociedade. E assim, chegamos ao cúmulo de culpar a vítima do assalto apenas por esta ser branca e rica, enquanto aquele que aponta a arma – aponta e atira, ainda que nem sempre as “circunstâncias” o obriguem – vê-se agora justificado pelas injustiças sociais. Por isso, se o personagem do Capitão Nascimento afirma que não aliviará para Baiano, ainda que este possivelmente tenha tido uma infância difícil, a esquerdalha reage indignada, embora não reaja com a mesma indignação quando um soldado é executado por traficantes.

A concepção segundo a qual o meio social determina a consciência do indivíduo, e não o contrário, está no cerne do pensamento marxista. É uma idéia estúpida por natureza, pois qualquer aluno da quinta série sabe muito bem que a sociedade não existe enquanto entidade independente, mas apenas como denominação dada a um determinado agrupamento de homens vivendo num local específico. Dispersados os homens, a sociedade não continuará pairando naquele lugar como um espectro monstruoso. Uma conclusão simples, que misteriosamente se torna uma equação complicada para a “inteligência” de qualquer comunista. Isso se deve ao próprio Marx que afirmava, passando por cima do conceito de liberdade humana, a necessidade de subjugar o bem individual em nome do bem comum, social. Nascia assim a idéia de que o Estado era mais importante do que o indivíduo e, portanto, se alguém determinava as coisas por aqui, esse alguém era o Estado. No pensamento marxista, a sociedade é quase uma força independente, definindo as leis por contra própria, estipulando caminhos a seguir, aprisionando os homens num sistema dito “opressor”. Desta forma, caso se queira transformar a vida miserável dos seres humanos, urge destruir o sistema vigente, necessita-se tomar o poder político a fim de mudar as regras do jogo. Não, nenhum comunista pensaria que a sociedade é o resultado da somatória de todas as consciências particulares, e que, sendo assim, de nada adianta tomar o poder e impor um novo sistema. Não, um esquerdista não enxerga essa obviedade, ainda que a história do comunismo tenha provado que regimes totalitários, forjadores de “novos mundos”, apenas geraram genocídios e mais genocídios. E por isso, porque não conseguem enxergar um palmo a frente do próprio nariz, continuam acreditando que uma pessoa se torna bandida sempre que a elite branca, capitalista, exploradora, católica, reacionária e direitista usurpa-lhe as oportunidades sociais, forçando-o a ingressar na vida de criminalidade.

Não pretendo negar aqui a desigualdade social existente em nosso país. Isso é um fato, assim como é um fato que a maioria da população não tem acesso a um bom emprego, a uma boa educação intelectual, a um bom sistema de saúde, a uma boa segurança pública, etc. Quando um comunista vê os problemas da sociedade não os vê de modo diferente de um conservador: a diferença está na identificação das causas e nas propostas de solução. Enquanto o primeiro culpa a exploração capitalista, o segundo culpa a tradição cultural do país, ainda não completamente adaptada às regras do capitalismo que trouxe prosperidade a países como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Canadá, Austrália, Japão, e tantos outros. Enquanto o primeiro pretende destruir as estruturas da sociedade a fim de impor um regime socialista, o segundo se baseia na livre iniciativa e na liberdade de consciência. Enquanto o primeiro oferece soluções ideais, teóricas, o segundo se baseia na experiência prática de nações que cresceram economicamente, e solucionaram questões sociais milenares – de fato, em nenhum período histórico e em nenhuma região do planeta encontramos sociedades que tenham solucionado o problema da miséria como ocorre atualmente nos países citados acima. Por isso, quando um direitista – ou qualquer ser humano normal... bom, acho que dá no mesmo – critica a glamurização da criminalidade, e exige que o bandido seja tratado como bandido, e não como vítima de injustiças sociais, não está fechando os olhos para a desigualdade social, nem tampouco ignorando os índices de violência. Na verdade, o que ele está fazendo é apenas compreender que uma coisa não se encontra, necessariamente, vinculada à outra, e que, acima de qualquer condição ou meio sociais, existe uma coisa chamada “escolha moral”.

Se não é possível afirmar que os bens materiais deste mundo estejam distribuídos igualitariamente entre todas as pessoas, decerto podemos concordar que Deus, ao criar os indivíduos em particular, dota-os da razão natural que possibilita o diálogo com o próprio Criador e oferece o dom da graça, abrindo a cada um o acesso aos conceitos de “certo” e “errado”. Deus não é, indubitavelmente, elitista, e quando distribui seus bens, não faz distinção entre pobres e ricos. Tanto uns quanto outros possuem, de forma inata, a capacidade de reconhecer o correto e o incorreto. Esse senso de moralidade recebido através da razão natural é aquele que dá ao homem a certeza de o homicídio ser algo proibido quando lhe surge a tentação insana de cometê-lo, e lhe dá também o sentimento de culpa quando a tentação se sobrepõe à razão, permitindo que o crime seja cometido. Deus fala com cada indivíduo, antes e depois do pecado. Fala antes a fim de avisar-lhe do erro que está prestes a cometer, e fala depois na intenção de mostrar-lhe a gravidade de seu ato, preparando-o para o arrependimento, e para o posterior perdão. E isso não depende, necessariamente, de uma formação religiosa tradicional – embora o auxílio dessa formação seja inestimável –, pois os conceitos de não matar, não roubar, não ferir são tão básicos na estrutura da psicologia humana que mesmo um ateu pode deles compartilhar. Sendo assim, quando um indivíduo da classe mais abastada se refreia diante da possibilidade de agredir ou matar alguém numa briga de trânsito, por exemplo, por ter consciência de que a vida humana é um bem valioso, não o faz por ter recebido de Deus tal privilégio, e sim porque a razão natural dispara o alarme do proibido. Ora, não seria realmente justo que Deus reservasse as noções de certo e errado a quem possui dinheiro suficiente para adquiri-los através da educação. O Criador oferece a todos os seus filhos a possibilidade de caminhar na via da correção, independente de sua condição social. Por isso, se um indivíduo pobre decide ingressar na criminalidade, não o faz de modo inconsciente, nem tampouco acreditando que o certo é o errado e vice-versa. Todo bandido sabe que matar é errado antes e depois de puxar o gatilho, e se o puxa é por sua livre escolha, seu livre arbítrio, e não por uma coação social externa. Pois se o meio é capaz de influenciar a decisão de um ser humano, não é, no entanto, capaz de determinar. O que determina, em última instância, é a escolha moral. – Eu sei que matar é errado, mas ainda assim vou matar – pensa todo criminoso antes de cometer um assassinato.

A voz da razão natural é, assim, aquela que oferece os argumentos mais decisivos no momento de cada escolha. E a escolha moral é aquilo que diferencia um pobre que decide ingressar na criminalidade de outro que prefere seguir uma vida justa, ainda que extremamente penosa. Numa favela, por exemplo, onde todos sofrem sob as mesmas influências do meio, apenas uma minoria ingressa na bandidagem, enquanto a maioria trabalha e enfrenta as dificuldades do dia-a-dia. A que se deve esse estranho fenômeno? Livre arbítrio, meu camarada. Para um comunista, porém, aquele que passa por uma infância difícil, que não encontra as mesmas oportunidades oferecidas às elites, deve necessariamente tornar-se um criminoso. A sociedade é a culpada pelos homicídios, roubos, seqüestros, etc; quanto ao bandido, esse não tinha outra escolha. Uma idéia tão cretina como essa não é apenas ilógica, mas é também verdadeiramente preconceituosa, pois nivela as pessoas por baixo, considerando todo pobre um bandido em potencial. Além disso, fornece aos delinqüentes um novo argumento no diálogo íntimo com sua consciência. Sempre que o alarme do proibido soa ou o arrependimento machuca, o bandido pode agora responder: – Não preciso me sentir culpado. A culpa é da sociedade. – Desta forma, vemos que a ideologia das esquerdas não somente é inútil no combate à violência, como, na realidade, é até mesmo sua incentivadora, pois transforma o marginal numa espécie de revolucionário marcuseano, num contestador do status quo, naquele que enfrenta os inimigos do povo – ou seja, os ricos – com as únicas armas de que dispunha: a bestialidade. A realidade nua e crua é que a ideologia comunista vem há décadas colaborando com a criminalidade não apenas através do tráfico de drogas e da indústria dos seqüestros (vide Farc’s e MIR), mas também criando uma cultura que justifica todo ato de violência cometido pelos criminosos.

Não, não creio que minhas palavras convencerão um único comunista sequer. O pensamento ideológico é como uma tela que se interpõe entre a visão do militante e a realidade. Falar daquilo que está por trás, daquilo que é real, é falar de algo incompreensível para essa gente. O comunismo é mesmo uma burrice ingênita, não há muito que se esperar de quem acredita nele. No final das contas, é preciso admitir que a choradeira dos petralhas serve como um bom aviso: se eles esperneiam é porque a coisa é boa.

Nenhum comentário: