sexta-feira, 4 de maio de 2007

Bons e maus ventos

Valdo Cruz Valdo Cruz, 46, é repórter especial da Folha. Foi diretor-executivo da Sucursal de Brasília durante os dois mandatos de FHC e no primeiro de Lula. Ocupou a secretaria de redação da sucursal e atuou como repórter de economia. Escreve às terças. (01/05/07).

Depois do processo de privatização da segunda metade década de 90, o Brasil vive atualmente a segunda importante onda de investimento direto. O investimento bruto estrangeiro no país atingiu US$ 34,9 bilhões nos últimos 12 meses acumulados em março último, aproximando-se dos US$ 40 bilhões registrados em meados de 99. Dado importante é que, hoje, o investimento cresce sem o processo de venda de estatais, mas puxado pelo ambiente de estabilidade e expectativas de mercado atraente no país. Uma onda de bons ventos para a economia brasileira.

O economista Octavio de Barros, diretor de pesquisa macroeconômica do Bradesco, ressalta que esse movimento sinaliza uma aposta de risco no país, que tende a tornar a economia brasileira mais competitiva em vários setores. Defensor de uma maior abertura da economia, ele destaca que todas as estatísticas mostram que os países que mais exportam são aqueles que também importam muito.

O professor Glauco Arbix, ex-presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) destaca que um grupo de empresas está aproveitando o atual momento da economia brasileira, que atrai mais investimentos, para se inovar. "Se você olhar a pauta exportadora brasileira, verá uma realidade incontestável: produtos de média e alta densidade tecnológica crescem a uma velocidade muito maior que as commodities."

O efeito negativo sobre a economia é que o aumento de ingresso de divisas no país contribui para uma maior desvalorização do dólar, cujo valor está próximo de cair abaixo de R$ 2. O Banco Central tem procurado evitar uma maior valorização do real adquirindo dólares, o que fez as reservas internacionais chegarem perto de US$ 120 bilhões. Essa valorização do real chegou a gerar críticas pesadas contra o Banco Central no início do ano. Depois de mudanças na diretoria do órgão, porém, sinalizando uma expectativa de mudança no ritmo de queda dos juros, houve uma espécie de trégua dentro do governo, principalmente na equipe econômica.

Enquanto isso, o governo adotou medidas protecionistas a favor dos setores têxtil e de calçados, que sofrem com a concorrência dos produtos chineses. Pode até parecer uma medida saudável, mas no cômputo geral pode trazer maus ventos para a economia brasileira. A medida, aplaudida por empresários, foi vista com ceticismo por economistas. Eles temem que ela leve a uma apreciação maior do real, já que tende a aumentar o saldo comercial. E pode funcionar ainda como um estímulo para que esses setores deixem de procurar ser mais competitivos.

Ou seja, uma medida na contramão do atual momento da economia. Várias empresas brasileiras estão procurando se inovar para serem cada vez mais competitivas no mercado externo e interno. Aí o governo decide proteger um setor específico da economia. Nada contra buscar preservar empregos e empresas no país. A forma adotada, porém, não é positiva. O governo deveria adotar outro caminho. Por exemplo, se há concorrência desleal, questionar esse procedimento legalmente. Se há entrada subfaturada de produtos, fazer uma devassa nessas importações. Além disso, deveria baixar medidas para tornar mais competitivas essas empresas. Elas enfrentam chinesas que têm baixo custo com mão-de-obra. Então por que o governo não reduzir seus encargos sociais, conforme chegou a ser prometido? Aí o governo perde receita. Aí não dá. Essa deve ser a resposta. Mais cedo ou mais tarde o país terá de enfrentar esse dilema. Reduzir o apetite do Estado em benefício do mundo real da economia.

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