Martha Mendonça-Revista Época-30/04/07.
Aos 7 anos, Marina Maciel Ansanelli surpreende pela desenvoltura. Discute os problemas domésticos com os pais, a professora Márcia e o estatístico Donato, e participa da tomada de decisões. Em alguns casos, teve de entender que nem todas as suas vontades - como ter um irmãozinho e aprender italiano - poderiam ser atendidas. Em outros, dá conselhos aos pais - ensinando-os a não desperdiçar água ou tentando convencê-los a parar de fumar, por exemplo. "Marina nos dá lições de moral. Aprendemos muito com ela", diz o pai. Crianças como Marina são o que a terapeuta americana Elisa Medhus, da Universidade do Texas, batizou de "filhos heróis", um meio-termo entre a infância negligenciada de dois séculos atrás e os pequenos tiranos criados pela geração pós-baby boom, a quem tudo era permitido. "Essas novas crianças têm valores concretos e agem de acordo com seus impulsos internos, mais que pelo que é ditado pelos amigos ou pela mídia", diz a terapeuta, autora do livro Filho Herói - Como Educar Crianças Éticas, Independentes, Responsáveis e Corajosas (editora Mercuryo).
Os especialistas listam pelo menos cinco motivos para acreditar que a nova geração de crianças pode ser considerada mais consciente que as anteriores:
• São tolerantes à diversidade. A maioria já vive em lares não-tradicionais, só com um dos pais, padastro e madrasta, meios-irmãos e até pais do mesmo sexo.
• Nenhuma outra geração tem tamanho conhecimento tecnológico com tão pouca idade: confesse que você já pediu ajuda ao filho para instalar um software ou baixar uma canção da internet. Ou se surpreendeu ao ver como aos 2 anos ele já controla bem o mouse.
• A informação está em toda parte: televisão, internet, jornais e revistas não faltam. Resta saber separar o que é bom do que é ruim.
• São consumidores treinados: o cardápio de produtos e serviços nunca foi tão grande nem tão dirigido aos pequenos.
• São mais inteligentes: de acordo com uma pesquisa da Universidade do Arizona, os estudantes de hoje têm, em média, Q.I. 14 pontos maior que os dos avós e 7 pontos maior que o dos pais.
| Os pais falham, muitas vezes, por não acreditar na capacidade dos filhos de superar frustrações |
Para as famílias, a conseqüência de filhos mais ativos e responsáveis é a maior possibilidade de negociação e, por conseqüência, de maior harmonia. "Famílias são grupos hierarquizados, não totalmente democráticos. Mas há bastante espaço para negociar", diz a psicóloga Terezinha Féres-Carneiro, da PUC-RJ, há 30 anos terapeuta de família. Segundo ela, quando as crianças têm seu potencial de responsabilidade e independência subestimado, um dos lados desse jogo de forças fica inativo, desequilibrando o grupo. "A tendência dos pais contemporâneos é fazer tudo pelos filhos. Fazem o trabalho de casa por eles, acatam suas vontades mais estapafúrdias, realizam todos os seus desejos de consumo", diz a psicóloga. O resultado é o pequeno ditador, a criança mimada, que não valoriza o que tem e, no fim, não acredita em suas capacidades individuais. No consultório de Terezinha, as maiores queixas dos pais se referem à falta de autoridade. "Mas muitos deles não estão agindo para conseguir um canal de negociação com os filhos", afirma.
Os pais falham, em boa parte das vezes, porque não acreditam na capacidade de seus filhos de superar problemas e frustrações. Até meados do século XIX, não havia a valorização da infância. As crianças eram cuidadas por amas e levadas para estudar longe da família, em mosteiros e educandários. Ter filhos era visto como um meio de perpetuar nome e patrimônio. Com a revolução industrial, a família burguesa, originária do casamento por amor, e não por interesses sociais ou financeiros, começou a se aproximar do modelo que conhecemos hoje - com a criança no centro de tudo. A partir da metade do século XX, com a entrada da mulher no mercado de trabalho, os pais, fora de casa a maior parte do tempo, passaram a acreditar que precisavam de especialistas para ditar a criação dos filhos. Multiplicaram-se os livros de pediatras, psicólogos, fonoaudiólogos e de todo tipo de profissionais ligados à infância e a escola ganhou enorme peso. Os pais perderam a certeza de ser os maiores responsáveis pelos filhos. De quebra, passaram a olhar as crianças como seres mais frágeis e incapazes do que realmente são.
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